GONÇALO
Porquê? Não lhe tem já amor? Bem me dizia então…
BOCAGE
Dizia mal… O que lhe dizia não se entendia com esta!… Não lhe tenho já amor? Tenho. E bem devéras, e bem de dentro… De certo o primeiro da minha vida… e… quem sabe?… talvez o ultimo! Mas o que provocou este amor desappareceu. Foi-se o que lh'o fazia grato, o que m'o fazia generoso. Foi-se-lhe com a condição, foi-se-lhe com a orphandade.
GONÇALO
Se tem esse modo de encarar as coisas…
BOCAGE
Poucos me hão-de entender. Poucos me entendem com effeito. Mas entende-me o sr. Gonçalo Mendo… Sei já que entende.—Rica! Rica? E eu que lhe levo em troca?… Dirão que lhe procuro a riqueza!… Dirão que fiz do affecto um pretexto, do carinho um degrau, da paixão uma usura!… «A poesia áquelle serviu», repetirá contente por ahi a turba vilan dos malevolos e dos zoilos… Arrendou-a por contrato… poz a lyra a juros… vende mais caro o coração que as obras.»—Dirão isto, dirão… e Deus sabe o que mais… E o grande numero crê… e não poucos applaudem…—Vender-me, eu!… Eu, Bocage!… Vender o coração! vender a musa!… esta musa indomita e indomavel!… Oh! basta que o suspeitem!
GONÇALO (calorosamente)
Pois a taes considerações sacrifica a felicidade? Pois…