BOCAGE
A felicidade?… Seria… Aqui presinto que era… Mas o orgulho a sublevar-se-me de continuo!—Resistiria a felicidade a similhante procella?—Podia a donzellinha modesta ser a estrella pollar do poeta sem graus nem haveres… Podia em quanto era o infortunio… Deixou de ser a constellação melancholica das noites saudosas; fez-se o astro d'oiro dos dias refulgentes!… Era… era a felicidade no amor casto, no puro enlevo… Veiu a fatalidade, e levantou em seu logar o idolo das multidões.—Esse não póde ser o idolo de Bocage!
GONÇALO
Tudo exagera… tudo leva ao extremo. É de condição distincta. Casando com a herdeira, póde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o estro, e servir a patria… O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!
BOCAGE
Bocage casar! Casar eu!… Curvar o collo a esse jugo!… roxear os pulsos com esses grilhões! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!… Eu!… Que mal me conhece!—É pouco para mim o ar e o espaço… Toda a idéa de sujeição me opprime como as grades de um carcere… Alexandre de Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da miseria extrema fazia officio e gala.—«Pede sem receio. Que queres de mim?» disse o grande conquistador.—«Que te affastes d'ahi, para me não tirar o sol,» respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do espirito d'esse philosopho… Acima de todas as venturas ponho uma… a verdadeira, a maior, a superior, a unica… a minha independencia!
GONÇALO (severamente)
Que quer então fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma é uma flor de candura.—Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos juvenis?… Quer-lhe immolar a mocidade?… A quê?… Ainda ha pouco estava ahi um pobre moço, penando por ella que fazia dó… penando uma paixão sincera e sem egoismo. Sabe quaes são os intentos d'esse mancebo? Deixar o lar e a patria… só para não vêl-a indifferente!…
BOCAGE (arrebatado)
Quem é?