Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava á este resultado.
—Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio Publico. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.
O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e contemplou a botina.
A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.
Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia consummada.
No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. A questão era de tempo.
Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade da familia.
Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.
Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de madre-silvas.
Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, modas, e mil futilidades.