Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.
Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu com tenue resistencia.
—Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?
A moça fez um gesto afirmativo.
—Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do Salles. Recorda-se?
—Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
—Duvida, Laura?
—Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha pedido.
—Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se lembra da dureza com que me tratava.
—E por isso consolava-se com Amelia?