—Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
—Quem lhe disse!
—Essa frieza.
—E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no semblante do mancebo.
—Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
—Ah!...
Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.
Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada preta.
O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.
Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades da retirada.