Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de qualquer explicação não era rasoavel.
A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.
Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava no interior.
Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
Elle via, e duvidava.
Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas nenhum tão imprevisto e curioso.
A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos salões.
Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.
Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama que ahi se agitava desde muito.
Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz no seio do Creador.