O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada, longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma raiva.
Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos. Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o facto inaudito á primeira derrota.
—Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
—Que pensa então?
—Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
—Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor cliquot.
A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a suspeitava.