Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente. Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para restolhar alguma caça retardada.

Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações. Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor, sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:

—Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.

Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado. Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas, eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas, cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em pratica durante o dia.

Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes, porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho; que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com que neste seculo se assassina mais cruelmente.

Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da botina.

Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle, atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:

—Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...

Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé que habitara aquelle ninho de amor.

Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar, defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.