Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?
O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.
—Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.
O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o sorpreso:
—Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?
—É verdade!
—Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar os companheiros.
O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.
Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.
Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.