Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com semelhante pata de elephante?

Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo; não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!

Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé até o calcanhar.

Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio, deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.

A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.

Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a apparencia de uma botina elegante.

A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto, porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela botina superior, podiam abrigar-se.

Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o tamanho do calçado.

Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão, incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação do amor proprio.

Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á portinhola do carro, na rua do Ouvidor.