Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.

—Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido, tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma estrella que não tem eclipse.

Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:

—Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão!...

Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.

Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:

—Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia para esperar.

Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:

—Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?

—Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.