—Ande lá.

—Deveras!

—É impossivel.

Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito dos que o escutavam.

A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.

Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos risonhos.

Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via, mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.

Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.

Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.

Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina: