—Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu aquelle estado. Não ha paixão que resista.
—Com effeito sabe ser feia!
—Ninguem acreditará que foi bonita.
—Pois foi uma belleza.
Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
—O marido nunca a amou!
—Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
—E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma. Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro para os indifferentes.
—É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.
—Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiencia propria.