—O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo; replicou Leopoldo.
—Ah!
O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra lenta e calma:
—É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o? Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.
Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.
[X]
Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso á janella.
Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.