Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa de Salles, no domingo em que estamos.

Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, o seguinte dialogo:

—Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.

—Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.

—Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.

—Que tenho eu de mais?

—Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!

—O que é então?

—Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.

—Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor soffrido?