—A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!

A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.

—Entende agora, D. Amelia?

—Não! murmurou tremula.

—Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr de longe o objecto de minhas adorações?

O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.

—Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.

—Eu não!

—A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.

Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das senhoras que chegavam.