A moça corou.

—Sim.

Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava antipathia.

Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do mancebo.

De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por uma especie de pudor, proprio das almas virgens.

Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo forte.

—Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?

—Para que? Estamos tão bem aqui.

—D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.

—Como quizeres.