Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era possivel exprimir na linguagem humana. Um pésinho, era aquelle ente adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha da natureza.
Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa fórma.
—Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste mundo uma cousa que me illumina a existencia.
—A gloria?... aposto.
—Um sorriso, apenas.
Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.
—Vais dansar? perguntou o leão.
—Agora não.
—Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te contarei a historia de meu pésinho.
—Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.