Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.
—Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...
—É esta a tua historia?
—Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.
—Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...
—Não a amo?
—Não!
—Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de mim?
—Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.
—A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.