Leopoldo levantou os hombros.
—Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente. Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico; á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores, ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil: tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te habituaste á adorar.
Horacio soltou uma risada:
—Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas fazer disso uma regra geral!...
—Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.
—Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.
—Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.
—Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?
—Sim.