—Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos arranjos.

Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo. Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo, como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.

As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.

Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava horror á seu noivo.

O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para impedir o dialogo intimo, que elle receiava.

Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.

—O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada sei, esqueci; disse elle despedindo-se.

Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.

Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá, permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao longe.

[XVI]