Por detrás das cortinas seguia-te com o olhar, até que desapparecias no fim da rua, e este prazer, rapido como era, alimentava o meu amor, habituado á viver de tão pouco.
Depois de minha carta tu deixaste de passar dous dias; estava eu á partir para aqui, d'onde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglez.
Minha mãi, incansavel nos seus desvelos, quer levar-me á Europa e fazer-me viajar pela Italia, pela Grecia, por todos os paizes de um clima doce.
Diz ella que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu espirito; mas eu sei que essa viagem é sua unica esperança, que não podendo nada contra minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe sua victima durante mais algum tempo.
Julga que fazendo-me viajar sempre me dará mais alguns dias de existencia, como si estes sobejos de vida valessem alguma cousa para quem já perdeu sua mocidade e seu futuro.
Quando ia embarcar para aqui lembrei-me que talvez não te visse mais, e diante d'essa derradeira provança succumbi. Ao menos o consolo de dizer-te adeos!...
Era o ultimo!
Escrevi-te segunda vez; admirava-me da tua demora, mas tinha uma quasi certeza de que havias de vir.
Não me enganei.
Vieste, e toda minha resolução, toda minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflictas no que te vou dizer, mas que reflictas com calma e tranquillidade.
Para isto parti hoje para Petropolis sem prevenir-te, e colloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas e uma distancia de muitas leguas.
Desejo que não procedas precipitadamente, e que, antes de dizer-me uma palavra, tenhas medido todo o alcance que ella deve ter sobre teu futuro.
Sabes o meu destino, sabes que sou uma victima cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, immenso, profundo, não te póde dar talvez dentro em bem pouco sinão o sorriso contrahido pela tosse, o olhar desvairado pela febre e caricias roubadas aos soffrimentos.
É triste; e não deves immolar assim tua bella mocidade, que ainda te reserva tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro.
Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabellos e minha historia: guarda-os como uma lembrança, e pensa algumas vezes em mim; beija esta folha muda, onde os meus labios deixáram-te o adeos extremo.
Entretanto, meu amigo, si, como tu dizias hontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; si te achas com forças de partilhar esta curta existencia, estes poucos dias que me restam á passar sobre a terra, si me queres dar esse consolo supremo, unico que ainda embellezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao bello céo da Italia mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos onde tu quizeres, ou onde nos levar a Providencia.
Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protector de Deos, á sombra dos cuidados de [nossa mãi], viveremos tanto um do outro, encheremos de tanta affeição os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja minha existencia, teremos vivido por cada minuto seculos de amor e de felicidade.
Eu espero; mas temo.
Espero-te como a flôr desfallecida espera o raio do sol que deve aquecel-a, a gotta de orvalho que póde animal-a, o halito da briza que vem bafejal-a. Porque para mim o unico céo que hoje me sorri são teus olhos, o calor que póde me fazer viver é o do teu seio.
Entretanto temo, temo por ti, e quasi peço á Deos que te inspire e te salve de um sacrificio talvez inutil!
Adeos para sempre, ou até amanhã!
Carlota»
VIII
IX
X
«Bem vês, meu amigo, dizia-me ella, que Deos não quer aceitar o teu sacrificio. Apezar de todo o teu amor, apezar de tua alma, elle impedio a nossa união; poupou-te um soffrimento e á mim talvez um remorso.
Sei tudo quanto fizeste por minha causa, e adivinho o resto; parto triste por não te ver, mas bem feliz por sentir-me amada, como nenhuma mulher talvez o seja n'este mundo.»