[VII]
Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que afflavam.
Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.
Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de susto e mais de colera.
—Iracema! exclamou o guerreiro recuando.
—Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.
—Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.
A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:
—O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araken.
A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso: