—A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.
Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos do extrangeiro.
Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.
Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.
—O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das arvores: suspirou a virgem.
E afastou-se lentamente.
[VIII]
A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.
Não sabia onde estava.
Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas folhas do bambú.