—Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...
Iracema pendeu a fronte abatida:
—Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem branca que te chama!
O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.
[XII]
O dia ennegreceu; era noite já.
O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.
No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.
O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.
Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.