O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de somno e repouso.

A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu coração resonava.

Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se estenderem pela immensidade dos mares.

Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.

Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no horisonte.

Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:

—A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, inimigos de tua e minha raça.

—Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu amigo o traidor Tupinambá.

—Quando for tempo teu irmão te dirá.

Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do hymeneo.