Poty, que a viu tão occupada, fallou:

—Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.

—Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.

A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da rocha, sem echo nem rumores.

O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo era maior em sua fronte.

Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana.

Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do mensageiro.

—O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu maior guerreiro.

—Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande chefe:—"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não mentirás.

O mensageiro partiu.