Iracema continuou:

—Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle leve tua voz á cabana de teus paes.

—A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.

A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os cabellos d'aquella que tu amas!

—A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde rama.

—Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o abaty depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra extrangeira.

—Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?

—Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cahir, para que a alegria alumie teu seio.

O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo.

[XXIX]