Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e suffocada:

—Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?

—Confiei-o!

—E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de vossos intentos?

—Escrevi tudo!

—Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?

—Sim!

—E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para decidir a qual deverá tocar?

—Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.

Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.