—Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.
O silencio se restabeleceu.
De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que havia defronte do pouso.
A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no fundo do alpendre.
Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.
O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque violento que soffrêra.
Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço, e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas palavras:
—Castigo do céo!
Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de confissão.
Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.