Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que ia gradualmente enfraquecendo.

—Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o meu crime.

—Fallai, irmão; eu vos escuto.

—Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor acolhimento.

«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo resultado seria grande riqueza para nós ambos.

«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que abrio-se inteiramente comigo.

«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.

«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.

«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.

«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»