O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz debil:

«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas, e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar silencio.

«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao menos lograr o premio.

«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que, necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus riscos e esperanças.

«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi o meu primeiro erro!...»

A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras balbuciadas pelo moribundo.

—Coragem, filho!

—Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...

—E... exclamou o frade com a voz surda.

E roubei o segredo!