No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca.
Este aventureiro chamou-se Loredano.
Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo; isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.
Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de sua fé apostolica.
II
YARA!
Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do Paquequer.
O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, tornavão aquelle retiro pittoresco.
Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das aves concertava com o trepido murmurio das aguas.
Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da frescura deliciosa que alli se respirava.
D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova de Bernardim Ribeiro.