Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse folguedo um vivo prazer.

Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.

Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de familia.

De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:

Yara!

E um vocabulo guarany: significa a senhora.

D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro original.

De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela encosta.

O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.

A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da collina.