Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.
Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro proseguio com extrema amabilidade:
—Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei, Sr. cavalheiro?
—Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.
—É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.
—Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.
—Per Bacco, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis justo que cada um pense á sua maneira.
—Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e avançando o passo da sua cavalgadura.
A conversa interrompeo-se.
Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão silenciosos uma par do outro.