—Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes das seis horas.

Alvaro corou.

—Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.

—Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer dia! replicou o italiano no mesmo tom.

Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e respondeo:

—Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.

—Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que aquelle que não quer ouvir.

—Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o ensinou? disse o cavalheiro gracejando.

—Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro á sua dama.

Alvaro enrubeceo pela terceira vez.