O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, não sabia como se ter.
Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.
Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.
—Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.
—E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.
A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de Cecilia.
III
GENIO DO MAL
Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz.
O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.
Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.