—É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de toda a familia a que actualmente pertenceis.
O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a alteração da physionomia.
Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que vimos revelar-se um anno depois.
Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.
Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.
Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?
Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da grandeza?
Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antonio de Mariz.
Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.
Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as proporções de um projecto.