Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr. Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.

—Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.

No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução nas suas idéas.

Viu Cecilia.

A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da faisca sobre a polvora.

Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias, refluirão ao coração e o suffocárão um momento.

Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de sua vida.

Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.

Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.

Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de vela para a Europa.