Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera modificar a situação.

Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que servirão para o seguimento desta veridica historia.

IV
CECY

Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de D. Antonio de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.

O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, senão quando via de longe a D. Antonio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por elle alguma estima.

Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; D. Antonio suppunha já que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.

A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de S. Thomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.

Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco Fernandes Coutinho.

Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.

O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que lhe inspirava.