Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.

O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:

—Vinde ver Pery, que chega, meu pai.

—Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.

E acompanhando sua filha, D. Antonio foi ao encontro do indio que já subia a esplanada.

Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os pequenos habitantes desse ninho gracioso.

O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; alguns conseguirão escapar-se.

Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um fructo.

A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e delicadas!

Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as flôres na terra e as estrellas no céo.