Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo fiel e dedicado.

—Chama-me Cecy, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.

V
VILANIA

É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns factos anteriores.

Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.

Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.

Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e incertezas.

Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.

O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia comprehender.

Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das duas moças.