A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.

Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.

Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.

Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.

Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.

—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.

—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.

—Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.

—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.

—Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.