—Pery!... exclamou Alvaro.
—Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.