Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!

Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não estava de accordo.

—Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.

—Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!

Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.

Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto mato.

—Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.

—E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.

—Pery vai longe!

—Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.