—Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!
Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era assaltar o adversario pelas costas.
Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em que estava encostado.
Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu caminho placidamente.
—Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com lingua de palmo!...
Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.
Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava em baixo de sua janella.
A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava magoa-la.
Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse só.
—Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!