Alvaro empallideceo desta vez.

—Sabeis uma cousa, Sr. Loredano?

—Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.

—Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de espião.

O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.

—Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...

—Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como a uma cobra venenosa.

A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os traços vigorosos.

Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:

—Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber qual é o que tem a temer!...