Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol.
Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera modificar a sua existencia.
—Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz.
Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a moça sentia por isso um pezar.
Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro endireitar isto, como elle dizia na sua linguagem simples.
Chegou-se ao fosso.
Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.
Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.
Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um arbusto.
Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objecto que ia procurar.