O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.

Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.

Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e surda.

Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.

A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de Cecilia.

A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:

—Pery sente uma cousa.

—O que?

—Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.

—E porque sentes isto?