Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou estupefacto.

O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.

Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do Paquequer. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande corpulencia.

Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa em que atravessou para a margem opposta.

Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento cerrou-lhe o coração.

D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que se tinha mostrado tão severo com seu filho.

Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte presentimento.

Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á casa.

Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não queria assustar sua mulher.

O mais já sabemos.